Viticultura

Reenxertia e curetagem de videiras afetadas por esca: duas técnicas de controlo úteis, mas delicadas de implementar Esta é uma tradução de um artigo técnico originalmente escrito em francês.

13% dos vinhedos franceses são afetados por doenças do lenho, e a esca está em progressão nas últimas décadas (Grosman & Doublet 2012). Fussler et al. (2008) apresentaram uma média de 3,25% de videiras afetadas pela esca. A gestão dessas videiras consideradas improdutivas consiste, muitas vezes, em cortar o braço sintomático ou arrancar a videira. Neste ambiente competitivo, o enxerto-pronto tem dificuldades em desenvolver-se e voltar à produção. Na luta contra a esca, a regeneração de videiras doentes parece, portanto, uma alternativa interessante.

Os sintomas foliares de esca (SFE) estão associados à presença de necrose que se desenvolve na madeira velha da videira. Várias necroses foram identificadas e ligadas a diferentes agentes patogénicos1 2 3. Embora os agentes patogénicos estejam presentes desde a formação da planta enxertada-soldada em viveiro4, todas as feridas favorecem a penetração desses fungos na madeira. Por outro lado, os mecanismos que levam à expressão de SFE ainda são pouco compreendidos, mesmo que a hipótese de toxinas seja tida em conta5. Foi destacada a ligação entre SFE e a extensão da necrose, incluindo a do tipo «amadou», necrose de coloração esbranquiçada e consistência branda da madeira, devido ao fungo Formitiporia mediterranea6 7. Assim, em vez de substituir as videiras que apresentam SFE, as técnicas de regeneração da videira foram atualizadas. No nosso estudo, a enxertia de borbulha em «chip budding» e a curetagem foram estudadas em parcelas de Cabernet-Sauvignon, que é uma variedade de uva sensível à esca, com idades entre 15 e 20 anos, idades de expressão foliar completa8. Quantificou-se a taxa de mortalidade direta e indireta, a porcentagem de reexpressão de esca e o retorno à produção.

Curetagem, uma técnica mortal para mais de 50% das videiras

As curetagens foram realizadas com motosserra, por um prestador de serviços especializado, nas primaveras de 2015 e 2016, em condições quentes e secas, numa parcela plantada em 1998 no Médoc. Em 2015, o prestador de serviços escolheu 124 videiras entre videiras com SFE identificadas em anos anteriores. Em 2016, a experiência repetiu-se em mais 98 videiras desta parcela, num total de 222 videiras ao longo dos 2 anos. O estatuto das videiras escolhidas variou entre uma ligeira expressão num braço da videira apenas num ano, a uma forte expressão vários anos consecutivos. Nenhuma videira anteriormente observada como apoplética foi curada. Cerca de 57% das videiras em que se tentou fazer curetagem não sobreviveram à operação (Figura 1). De facto, esta última é delicada e se houver muito tecido necrosado para remover no coração da videira, é comum que a sua remoção leve à morte da mesma. Nos 3 anos que se seguiram, 11% das videiras morreram, elevando a taxa de insucesso para 62%. A taxa de reexpressão atingiu 16,7% das videiras que sobreviveram à curetagem (Figura 1). Em comparação, a taxa de nova expressão de SFE nos mesmos anos, no resto da parcela é de 18,8% e a taxa de mortalidade é de 19,2%9.

Figura 1. Evolução do estado das videiras ao longo de 3 anos. A: Estado das videiras 3 anos após a curetagem (em 2018 para as videiras curetadas em 2015, e em 2019 para as videiras curetadas em 2016), os histogramas representam a percentagem acumulada dos diferentes estados das videiras curetadas para cada um dos dois anos, e os respetivos números de cada estado são mencionados à direita dos histogramas. B: Evolução das videiras que sobreviveram à curetagem face à dinâmica da parcela, os histogramas representam a percentagem cumulativa dos diferentes estados das videiras.

Independentemente do ano de curetagem, a taxa de insucesso é alta e há uma porcentagem de reexpressão rápida da mesma ordem de magnitude que as novas expressões no gráfico. Esta taxa é ainda mais dececionante, pois os pés selecionados incluíam pés com pouca esca e nenhum pé apoplético foi curetado.

Reenxertia, resultados mistos, mas durante um ano complicado

A regeneração por enxertia de borbulha em «chip budding» no porta-enxerto foi realizada na primavera de 2013, em todas as videiras observadas com SFE, forma crónica e apoplética, de 2 parcelas localizadas no Médoc, com idades respetivamente de 18 e 28 anos, num total de 648 videiras. As condições climatéricas em 2013 foram desfavoráveis a esta técnica (primavera fria e húmida) e várias videiras apopléticas fizeram parte do grupo de videiras reenxertadas. A taxa de insucesso do reenxerto acumulada entre falhas imediatas e nos 3 anos após a operação é de 40 a 50%. A taxa de videiras reenxertadas que expressaram esca pelo menos uma vez nos 3 anos após a enxertia é de 12,6% das videiras que sobreviveram ao reenxerto, incluindo nenhuma videira inicialmente apoplética (Figura 2). Em comparação, no mesmo período, a taxa de novos SFE nas duas parcelas foi em média de 18,7%, e a taxa média de mortalidade foi de 5,3%10.

Figura 2. Evolução ao longo de 3 anos do estado das videiras reenxertadas, em comparação com as videiras que expressaram sintomas foliares de esca pelo menos uma vez entre 2011 e 2013. Os histogramas representam a percentagem acumulada dos diferentes estados das videiras entre 2014 e 2016 para cada uma das duas parcelas. Os respetivos números de cada estado são mencionados à direita dos histogramas para as videiras reenxertadas.

Seja qual for a parcela, a taxa de insucesso é alta, mas é menor do que para a curetagem. A percentagem de reexpressão é elevada, mas inferior à taxa de novas expressões nas parcelas em causa.

Um rápido retorno à produção

O peso de colheita por videira foi medido em 30 a 60 videiras por modalidade (47 em média) nas 3 parcelas. Compara-se com o peso da colheita anual em videiras assintomáticas (As) que não expressaram nenhum SFE entre 2011 e 2019 (Figura 3).

As videiras curetadas (sem novos SFE) apresentam uma produção compreendida entre 61 e 80% de uma videira As a partir do ano seguinte à operação (Figura 3A). Em comparação, enxertos-prontos colocados na parcela em 2015 e 2016, produzem apenas 18% do peso da colheita de uma videira As, 3 a 4 anos após a plantação.

As videiras reenxertadas também têm um retorno à produção mais vantajoso do que um enxerto-pronto. Na parcela 2, o peso de colheita das plantas reenxertadas passa de 57% do peso de uma videira As, dois anos após a operação de enxertia, para 94% a partir do terceiro ano. O retorno à produção é mais gradual na parcela 3, passando de 40% dois anos após a reenxertia para 100% após 5 anos. Ao mesmo tempo, os enxertos-prontos da parcela 2, criada um ano após o ano da enxertia (Co14), produzem apenas 6% da produção de uma videira As dois anos após o plantio, e sua produção evolui lentamente até atingir quase 28% após 5 anos. Na parcela 3, a produção de enxertos-prontos instalados no mesmo ano da enxertia (Co13), é melhor com 19% da produção de uma videira As dois anos após a plantação, para chegar a 85% após 5 anos, mas esta produção permanece inferior à das plantas reenxertadas (Figura 3B e 3C).

Figura 3. Evolução da produção de videiras previamente afetadas por esca que foram curetadas (Parcela 1), reenxertadas (Parcelas 2 e 3) ou complantadas (Parcelas 1, 2 e 3) em comparação com videiras assintomáticas (sem expressão foliar de esca entre 2011 e 2019) nos 5 anos seguintes a estas operações técnicas. Os histogramas representam o rendimento médio por videira e as barras de erro representam o desvio-padrão. As diferentes letras indicam diferenças significativas entre as modalidades durante cada ano (HSD de Tukey, P < 0,05).

Técnicas promissoras, mas complexas de implementar

Na luta contra a esca, os viticultores hesitam frequentemente quanto às medidas a tomar para prolongar a vida útil das videiras e manter a sua produção. A avaliação de técnicas de regeneração como curetagem ou enxertia, mostra que é possível conter o desenvolvimento da doença e limitar a expressão foliar da esca, considerada prejudicial ao rendimento e qualidade das uvas. Além disso, um estudo recente mostrou que as uvas de videiras curetadas eram tão qualitativas como as videiras saudáveis. No entanto, essas técnicas são complexas e mesmo quando são realizadas por especialistas na área, a taxa de insucesso permanece alta no momento da realização, especialmente no que diz respeito à curetagem. Outros estudos mostram taxas de mortalidade mais baixas, seja só porque a taxa de mortalidade nas videiras que sobreviveram à operação é seguida, ou porque as condições de realização são mais favoráveis (idade e/ ou menor taxa de necrose das videiras curetadas, condições climatéricas mais favoráveis, ...) 11. Por outro lado, estas técnicas devem ser realizadas durante os períodos de pico de atividade do vinhedo. O custo por videira é mais elevado para a curetagem do que para a reenxertia, mas a reenxertia requer mais manutenção durante a época. Por outro lado, uma vez que os pés começam a desenvolver-se, eles mostram um rápido retorno à produção, o que pode tornar essas técnicas mais interessantes do que a complantação em determinadas situações. Proceder-se-ia a um estudo económico das parcelas em que é preferível optar pela regeneração. De facto, ao contrário da crença popular, a perda de rendimento das videiras afetadas pela esca está longe de ser total e estas técnicas são demoradas e dispendiosas de implementar12. A sua adaptação poderia, portanto, depender da taxa de videiras atingida na parcela e da valorização dos vinhos das parcelas.

Agradecimentos: Os autores agradecem aos châteaux que disponibilizaram as parcelas para a realização dos testes.

Notes

  • Mugnai, L., Graniti, G., and Surico G. 1999. Esca (black measles) and brown wood-streaking: two old and elusive diseases of grapevines. Plant Dis. 83: 404-418. https://doi.org/10.1094/PDIS.1999.83. 5.404
  • Cortesi, P., Fischer, M., and Milgroom, M.G. 2000. Identification and spread of Fomitiporia punctata associated with wood decay of grapevine showing symptoms of esca. Phytopathology 90: 967-972.
  • Laveau, C., Letouze, A., Louvet, G., Bastien, S., and Guerin-dubrana, L. 2009. Differential aggressiveness of fungi implicated in esca and associated diseases of grapevine in France. Phytopathology Mediterranea 48(1): 32-46. https://doi.org/10.14601/Phytopathol_Mediterr-2873
  • Larignon P., Berud F., Girardon K. and Jacquet O., 2007. Premiers résultats sur le cycle biologique des champignons associés aux maladies du bois de la vigne en pépinière. Rhône VO 2 : 16-23.
  • Andolfi, A.; Mugnai, L.; Luque, J.; Surico, G.; Cimmino, A.; Evidente, A. 2011. Phytotoxins Produced by Fungi Associated with Grapevine Trunk Diseases. Toxins 3 : 1569-1605. https://doi.org/10.3390/toxins3121569
  • Luque J., Martos S., Aroca A., Raposo R. and GarciaFigueres F., 2009. Symptoms and fungi associated with declining mature grapevine plants in northeast Spain. J. Plant Pathol 91: 381-390.
  • Maher N., Piot J., Bastien S., Vallance J., Rey P. and Guérin-Dubrana L., 2012. Wood necrosis in Escaaffected vines: types, relationships and possible links with foliar symptom expression. J. Int. Sci. Vigne Vin, 46: 15-27. https://doi. org/10.20870/oenoone.2012.46.1.1507
  • Fussler, L., Kobes, N., Bertrand, F., Maumy, M., Grosman, J., and Savary S. 2008. A characterization of grapevine trunk diseases in France from data generated by the National Grapevine Wood Diseases Survey. Phytopathology 98: 571-579. https://doi.org/10.1094/PHYTO-98-5-0571
  • Dewasme C., Mary S., Darrieutort G., Roby J.P. and Gambetta A. G. 2022. Long-term esca monitoring reveals disease impacts on fruit yield and wine quality. Plant disease.
  • Dewasme C., Mary S., Darrieutort G., Roby J.P. and Gambetta A. G. 2022. Long-term esca monitoring reveals disease impacts on fruit yield and wine quality. Plant disease.
  • Bruez, E., Cholet, C., Thibon, C., Redon, P., Lacampagne, S., Martignon, T., Giudici, M., Darriet, P., and Gény L. 2021. Influence of curettage on Esca-diseased Vitis vinifera L. cv. Sauvignon blanc plants on the quality of musts and wines. Oeno One 55(1): 171-182. https://doi.org/10.20870/oeno-one.2021.55.1.4479
  • Dewasme C., Mary S., Darrieutort G., Roby J.P. and Gambetta A. G. 2022. Long-term esca monitoring reveals disease impacts on fruit yield and wine quality. Plant disease.

Autores


Coralie Dewasme

coralie.dewasme@agro-bordeaux.fr

Afiliação : EGFV, Univ. Bordeaux, Bordeaux Sciences Agro, INRAE, ISVV, F-33882 Villenave d’Ornon, France

País : France


Séverine Mary

Afiliação : Vitinnov, Bordeaux-Sciences Agro, ISVV, 33170 Gradignan France

País : France


Jean-Philippe Roby

Afiliação : EGFV, Univ. Bordeaux, Bordeaux Sciences Agro, INRAE, ISVV, F-33882 Villenave d’Ornon, France

País : France

Referências

  • Grosman, J. and Doublet, B. 2012. Maladies du bois de la vigne : synthèse des dispositifs d’observation au vignoble, de l’observatoire 2003-2008 au réseau d’épidémiosurveillance actuel. Phytoma 651 :31-35.
  • Fussler, L., Kobes, N., Bertrand, F., Maumy, M., Grosman, J., and Savary S. 2008. A characterization of grapevine trunk diseases in France from data generated by the National Grapevine Wood Diseases Survey. Phytopathology 98: 571-579. https://doi.org/10.1094/PHYTO-98-5-0571
  • Mugnai, L., Graniti, G., and Surico G. 1999. Esca (black measles) and brown wood-streaking: two old and elusive diseases of grapevines. Plant Dis. 83: 404-418. https://doi.org/10.1094/PDIS.1999.83. 5.404
  • Cortesi, P., Fischer, M., and Milgroom, M.G. 2000. Identification and spread of Fomitiporia punctata associated with wood decay of grapevine showing symptoms of esca. Phytopathology 90: 967-972.
  • Laveau, C., Letouze, A., Louvet, G., Bastien, S., and Guerin-dubrana, L. 2009. Differential aggressiveness of fungi implicated in esca and associated diseases of grapevine in France. Phytopathology Mediterranea 48(1): 32-46. https://doi.org/10.14601/Phytopathol_Mediterr-2873
  • Larignon P., Berud F., Girardon K. and Jacquet O., 2007. Premiers résultats sur le cycle biologique des champignons associés aux maladies du bois de la vigne en pépinière. Rhône VO 2 : 16-23.
  • Andolfi, A.; Mugnai, L.; Luque, J.; Surico, G.; Cimmino, A.; Evidente, A. 2011. Phytotoxins Produced by Fungi Associated with Grapevine Trunk Diseases. Toxins 3 : 1569-1605. https://doi.org/10.3390/toxins3121569
  • Luque J., Martos S., Aroca A., Raposo R. and GarciaFigueres F., 2009. Symptoms and fungi associated with declining mature grapevine plants in northeast Spain. J. Plant Pathol 91: 381-390.
  • Maher N., Piot J., Bastien S., Vallance J., Rey P. and Guérin-Dubrana L., 2012. Wood necrosis in Escaaffected vines: types, relationships and possible links with foliar symptom expression. J. Int. Sci. Vigne Vin, 46: 15-27. https://doi. org/10.20870/oenoone.2012.46.1.1507
  • Dewasme, C., Mary, S., Darrieutort, G., Roby, J. P., & Gambetta, G. A. (2022). Long-Term Esca Monitoring Reveals Disease Impacts on Fruit Yield and Wine Quality. Plant disease, 106(12), 3076–3082. https://doi.org/10.1094/PDIS-11-21-2454-RE
  • Bruez, E., Cholet, C., Thibon, C., Redon, P., Lacampagne, S., Martignon, T., Giudici, M., Darriet, P., and Gény L. 2021. Influence of curettage on Esca-diseased Vitis vinifera L. cv. Sauvignon blanc plants on the quality of musts and wines. OENO One 55(1): 171-182. https://doi.org/10.20870/oeno-one.2021.55.1.4479

Estatísticas do item

Acessos: 2496

Downloads

PDF: 149

XML: 45