Plasticidade dos perfis sensoriais do vinho tinto: melhor compreensão através de perfis de acumulação de açúcar em bagos de uvas Extraído do artigo de investigação “Performing sequential harvests based on berry sugar accumulation (mg/berry) to obtain specific wine sensory profiles” (OENO One, 2021) e “Unravelling wine volatile evolution during Shiraz grape ripening by untargeted HS-SPME-GC × GC-TOFMS” (Food Chemistry, 2019). Esta é uma tradução de um artigo técnico originalmente escrito em inglês.
Estilos aromáticos reprodutíveis de vinho tinto podem ser previstos, com base na medição da acumulação de açúcar nos bagos das uvas (correspondente à quantidade de açúcar que se acumula por bago; mg/ bago/ dia) e no peso fresco dos bagos. Fases de maturação distintas, "Fruta Fresca" que lembra notas de frutas frescas/ frutos vermelhos e "Fruta Madura", associada a características de frutos pretos e ameixas, podem ser correlacionadas com a acumulação do açúcar nos bagos (mg/ bago) e a evolução do peso fresco do bago, sem qualquer relação direta com a concentração de açúcar do bago. Depois disso, a acumulação de açúcares nos bagos atingiu um patamar, as maturações aromática e fenólica do vinho foram dissociadas da maturação tecnológica.
Contexto
Um aspeto crítico no papel de um viticultor ou enólogo é prever as datas das colheitas, para ajudar a produzir o estilo de vinho desejado. No contexto do aquecimento global, os produtores de vinho precisam, mais do que nunca, de indicadores objetivos de maturação das uvas, para informar e apoiar as decisões sobre o momento da colheita. Desta forma, um interesse considerável no desenvolvimento progressivo de precursores de sabor derivados da uva durante a maturação dos bagos, atraiu a atenção dos investigadores
A decisão de colher as uvas para produção de vinho é frequentemente determinada pela medição da concentração de açúcar nas uvas, como sólidos solúveis totais, e expressa em °Brix (maturação tecnológica). O °Brix pode ser o único critério para a decisão da colheita, ou associado com parâmetros analíticos básicos relacionados com a acidez dos bagos (pH, acidez titulável)
Como melhorar a escolha da data da colheita para cultivares tintas?
Um conceito recente sugeriu que a velocidade de acumulação de açúcar no bago, correspondente à quantidade de açúcar que se acumula por bago (figura 1), poderia ser usada como um indicador fisiológico do funcionamento da videira para prever datas de colheita com 12 a 40 dias de antecedência, com base no possível perfil aromático do vinho
Figura 1. O princípio "teórico" da acumulação de açúcar e água nos bagos (adaptado de Deloire, 2011)
O objetivo do nosso estudo sobre Shiraz/ Syrah e Cabernet-Sauvignon foi destacar a existência de estilos de vinho aromáticos reprodutíveis, utilizando colheitas sequenciais. Isto foi conseguido através da medição da acumulação de açúcar e do peso dos bagos da uva, integrada com uma subsequente abordagem quantitativa da composição e sensorial da uva e do vinho. Os vinhos foram elaborados a partir de uvas provenientes de duas colheitas consecutivas de seis vinhedos, caracterizadas localizadas em três mesoclimas diferentes da Austrália. Os vinhos foram avaliados através de análise sensorial descritiva e foi determinado um conjunto abrangente de análises químicas das uvas e dos vinhos. Também foram investigadas a evolução das relações perfil sensorial - composição do vinho - uva
1. Medição da acumulação de açúcar no bago da uva para prever a data de colheita
Foram determinadas as curvas de acumulação de açúcar e do peso fresco para numa população de bagos para todas as parcelas e os resultados estão descritos em Antalick et al. (2021)
Figura 2. Método proposto para determinar as datas ótimas de colheita, em relação ao estilo de vinho potencial baseado na acumulação de açúcar por bago, para Shiraz e Cabernet-Sauvignon.
2. Análise sensorial do vinho
Em 2014, uma evolução aromática semelhante foi observada para os vinhos Shiraz e Cabernet-Sauvignon da região de Griffith. Os vinhos de "Fruta Fresca" (FF) foram associados a frutos vermelhos e atributos herbáceos, como a folha de tomate, azeitona verde e especificamente pimento, para Cabernet-Sauvignon. Em Shiraz, os vinhos FF foram percebidos como mais ácidos, uma descoberta que não era óbvia para o Cabernet-Sauvignon. Por outro lado, os vinhos de "Fruta Madura" (FM) foram caracterizados por notas a frutos pretos, ameixa, maior adstringência e foram percebidos como mais alcoólicos. Em 2015, foi realizada uma colheita intermédia entre as etapas FF e FM. Os vinhos apresentaram um padrão semelhante de evolução aromática entre FF e FM, independentemente da variedade, local e condições climáticas entre regiões e colheitas
Figura 3. Classificação média ±DP da intensidade dos atributos sensoriais mostrando diferenças significativas avaliadas nos vinhos Shiraz 2015 (A: n = 18 por data de colheita) e vinhos Cabernet-Sauvignon (B: n = 6 por data de colheita) entre as datas de colheita (H1, H2, H3). A ANOVA unidirecional foi utilizada para comparar os dados. Letras diferentes acima das barras indicam a significância em p<0,05 (LSD de Fischer). Toda a incerteza citada é o desvio-padrão de 18 vinhos Shiraz (A) e 6 vinhos Cabernet-Sauvignon (B), respetivamente.
Portanto, realizar uma colheita sequencial simples com base apenas na concentração de açúcar na uva não fornece uma garantia dos atributos aromáticos no vinho final. Em vez disso, verificou-se que a acumulação de açúcar por bago estava mais sincronizada com as características aromáticas percebidas nos respetivos vinhos.
A investigação sobre a composição volátil/ característica sensorial do vinho revelou que tanto os compostos derivados da uva, como os compostos derivados de leveduras foram afetados pela maturação da uva. Alguns compostos individuais podem ser considerados como marcadores de maturação comuns aos vinhos Shiraz e Cabernet-Sauvignon. A contribuição do sulfureto de dimetilo (DMS) para o aroma a frutos pretos específico para vinhos de Fruta Madura foi o marcador mais relevante para discriminar as fases da Fruta Fresca das fases da Fruta Madura. Também foram identificados alguns marcadores específicos de cultivares com potencial contribuição sensorial. O (Z)‐3‐hexenol, em particular, parece contribuir para o aroma a fruta fresca em vinhos Shiraz. A evolução dos terpenóides parece estar globalmente dissociada da acumulação de açúcar durante a maturação tardia. Em contraste, a composição em ésteres foi significativamente diferente nos vinhos Shiraz e Cabernet-Sauvignon, no entanto, uma tendência consistente ainda foi observada entre as fases de maturação. A relação complexa entre a composição da uva, a composição do vinho e o perfil sensorial do vinho, foram difíceis de definir. As relações são complicadas devido a uma série de fatores possíveis, incluindo; outros compostos que não foram analisados, efeitos do metabolismo de leveduras e interações sensoriais influenciando a perceção do vinho.
Conclusões
O presente estudo evidenciou a existência de uma sequência aromática previsível durante a maturação do Shiraz australiano e do Cabernet-Sauvignon de diferentes mesoclimas. Duas fases distintas de maturação, nomeadamente, "Fruta Fresca", que lembra notas a frutas frescas/ frutos vermelhos e "Fruta Madura", associadas às características de frutos pretos e ameixas, foram consistentemente evidentes. A dinâmica da evolução aromática pode ser correlacionada com a acumulação de açúcar nos bagos e a evolução do peso fresco dos bagos, sem qualquer relação direta com a concentração de açúcar no bago. Portanto, a acumulação de açúcar e o peso fresco dos bagos poderiam ser usados como indicadores fisiológicos adicionais para avaliar o funcionamento do vinhedo. Depois disso, a acumulação de açúcar nos bagos atingiu um patamar, as maturações aromática e fenólica do vinho foram dissociadas da maturação tecnológica.
Agradecimento: Os autores agradecem a Campbell Meeks por produzirem os vinhos experimentais neste estudo e aos produtores de uva e enólogos da Austrália pelo seu apoio financeiro, através do seu organismo de investimento Wine Australia. Os autores também gostariam de agradecer aos produtores de Griffith e Orange pelo acesso aos vinhedos e pela doação das uvas.
Notes
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Referências
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